segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Crónica de uma Morte Anunciada III

Breve Explicação do Esquema da(s) Pirâmide(s)


- 3ª parte -

O final do ciclo - O ponto de saturação

A dada altura no tempo, não se sabe bem quando (a Agel prevê 2020, mas pode ser já para o ano que vêm), o mercado português atingirá o ponto de saturação quanto às adesões à rede da pirâmide. Quer isto dizer que a não há procura nenhuma para a oferta disponível, e não há mais ninguém a querer entrar para o negócio.
A nossa pirâmide, se se recordam da mensagem anterior, está neste momento com cerca 525.000 membros inscritos. Não sei se é uma estimativa adequada ou não. Foi um número que lancei ao calhas (é aprox. 5% da população total portuguesa). O número exacto, mesmo que pudesse ser calculado, não seria importante para a esta conclusão.
Pegando nesta estimativa, temos, em números aproximados, 33.000 membros a ganharem dinheiro suficiente para pagarem os custos mensais do produto. Temos outros 33.000 membros numa posição intermédia - alguns se calhar a ganhar, outros nem por isso, e temos os restantes 459.000 em posição de perda, com especial relevo para os 262.000 da última camada hierárquica. É desta forma que o dinheiro entra para os cofres da Agel. Com uma grande parte dos inscritos, em situação de prejuízo, a pagarem a maior fatia do bolo, e ainda a contribuirem directamente para a riqueza dos que estão nas camadas de cima (é, como disse na primeira mensagem do blog, o espelho de uma sociedade decante e desacreditada). Melhor ainda: a Agel fez as coisas de modo a convencer tudo e todos que a troca é justa. Afinal de contas, ninguém está de facto a ter prejuízo, porque a única coisa que estão a fazer é uma compra - uma troca de dinheiro por produtos - é justo, certo?. Pois. Não nos podemos é esquecer de uma outra realidade paralela. Quem se inscreveu neste negócio, e concordou de livre vontade "comprar" 60€ ou 120€ de produtos por mês, fê-lo não pela crença no produto em si, mas muito provavelmente na esperança de poder vir a ganhar dinheiro com o negócio da pirâmide. Fê-lo com a ideia de poder vir a angariar mais membros para colocar por baixo de si e vir a ter rendimento a partir dessa lógica. Fê-lo porque foi aliciado pelo marketing enfabulado da Agel. Fê-lo porque lhe disseram, por escrito, ispis verbis, que na Agel "você consegue fazer sempre dinheiro com o seu volume de organização" (retirado do site de um "distribuidor" Agel). Fê-lo porque acreditou, em certa altura do percurso, que podia melhorar a sua vida a ponto de comprar um carro topo de gama e viajar duas vezes por ano para um destino qualquer paradisíaco.
Tudo muito bem pensado. Tudo muito bem arquitectado. É genial, de facto. Tenho de me render às evidências.
De volta aos nossos cálculos, algumas percentagens rápidas:

525.000 = 100% - Total de inscritos na pirâmide.

33.000 = 6,5% - Total de inscritos com "lucro" mensal, e, - Total de inscritos "na fronteira".

459.000 = 87% - Total de inscritos com "prejuízo" mensal.

262.000 = 50% - Total de inscritos só com "perdas" mensais.

Estão aí os valores para quem fica a ganhar alguma coisa e para quem fica a perder alguma coisa no final de tudo. Creio que não tenho de acrescentar mais nada aos meus argumentos sobre a honestidade da Agel, uma empresa que sabe o que acontece quando a saturação é atingida e mesmo assim opta por este esquema de negócio. É irónico que o produto que estão a vender seja publicitado como sendo benéfico para a saúde. O lema da Agel bem que poderia ser: "Preocupamos-nos muito com a sua saúde, e ainda mais com a sua carteira."

O Colapso

O momento de saturação do mercado é inevitável. O que não sabemos é quando vai acontecer e com quanta gente na pirâmide vai acontecer.
A pergunta que todo gostaríamos de ver respondida neste momento é: o que é que as pessoas que ficaram por baixo das outras todas na pirâmide, dois ou três meses mais tarde, quando repararem que não entra ninguém para rede, vão fazer?
Há quem defenda que vão começar a vender os produtos para rentabilizar o investimento e suplantarem os custos mensais.
A mim, sinceramente, não me parece. Esse pessoal todo está sedento de dinheiro. Esse pessoal todo já viu o que é que os amigalhaços lá de cima andam a ganhar por mês sem fazerem nenhum. Esse pessoal inscreveu-se porque pensou que ia ser a mesma coisa. Lucro fácil em pouco tempo. Quando cairem em si e virem que não há dinheiro para todos, quando virem que aquelas promessas todas que lhes contaram nos vídeos eram trafulhice, que o "plano de compensações" era apenas uma metáfora viscosa para "conto do vigário", a minha aposta é: vão começar a desistir. Estou mesmo a imaginar aqueles que aderiram ao plano "executivo": três posições dispostas em triângulo nas últimas camadas da pirâmide a gerarem um lucro acumulado de exactamente NADA.
Vão vender o produto a quem? À família? Aos Amigos? Àqueles que se recusaram a entrar na rede? Ná!... Isso seria parecido a irem à loja de produtos diatéticos da esquina, comprarem uns tantos artigos, e depois venderam mais caro à família e aos amigos. Além disso, este pessoal tem pouca pinta de vendedor. Não estão para perder tempo a tentarem vender 20 ou 30 pacotes de gel para ganharem um tusto ou dois todos os meses. Não! A mama acabou nesse instante. Vão começar a desistir. Um a um. Duzentas e tal mil pessoas a desistirem uma a uma, de um momento para o outro. Pode demorar uns meses. Mas pode acontecer.
A partir daqui, é fácil imaginar o resto. A camada de baixo desaparece, e a seguinte é promovida a última. Havia 19, agora há 18. Daí a um mês, se calhar, já só há 17. E por aí fora.
A pirâmide pode implodir. Pode regredir de volta para o início. Algures nessa caminhada, vai desmanchar-se em pedaços.
A Agel, nessa altura, já de bolsos bem volumosos, vai dizer adeus ao mundo.
A história, contudo, tem uma lição diferente para nos contar: em grandes empresas de MLM (Amway, Herbalife, Nu Skin), o que acontece no ponto de saturação é que a maior parte dos interessado desiste de facto ao fim de alguns meses de actividade, mas há logo mais pessoas interessadas em entrar para a rede. Por outras palavras, o pessoal que está no topo da pirâmide mantém-se inalterado, sempre a ganharem dinheiro à custa das novas adesões, e as camadas de baixo em constante rotação anual. No caso da Herbalife, por exemplo, a taxa global de rotação de "distribuidores" é de 80% por ano, e de 98,5% a cada 14 meses... Por estes valores, chegamos à rápida conclusão de que muito mais de 90% dos inscritos na rede acabam, de facto por perder dinheiro. Segundo estudos específicos sobre o assunto, os valores atingem 99,9%.





Considerações finais:

Como alguns repararam, a Agel nunca poderia pagar um tão grande valor de comissões todos os meses. Com valores dessa magnitude, nem o custo de produção dos artigo poderia suportar. O cálculo de pagamentos de comissões foi sobre-avaliado. O cenário real é pior ainda que o teórico. Há menos dinheiro a ser "devolvido" aos inscritos. Esta discrepância nos cálculos deveu-se à impossibilidade de incluir outros métodos de comissões e prémios na explicação, para não complicar o modelo.

Outra crítica a apontar a este modelo é a simetria do triângulo. Na vida real não acontece assim. Há braços que crescem mais que outros. Seria uma grande confusão tentar representar um modelo desses. As conclusões, no entanto, não mudariam: os últimos três/quatro níveis estariam em situação de prejuízo.

Outro assunto para pensar: Uma pirâmide VS várias pirâmides.
Se imaginarmos que os três ou quatro primeiros níveis de uma pirâmide são propriedade da empresa, as coisas ficam mais engraçadas ainda. Retirando 8, ou 16, ou 32 pessoas do topo da pirâmide, a Agel, para além de poupar nas comissões milionárias, consegue dividir a pirâmide em várias. E seria muito ingénuo pensar que não foram iniciadas várias pirâmides em simultâneo em diferentes locais e entre diferentes grupos sociais. Com várias redes a operar em paralelo, há muito mais hipóteses de inscrever novos membros.

Até a data, ainda não vi nenhuma tentativa de explicação "do futuro", igual ou diferente desta, por parte de qualquer representante da Agel. Dá que pensar. O desafio, no entanto, mantém-se. Mostrem-me um esquema que espelhe de forma mais acertada tudo aquilo que estou a dizer. Corrijam os meus erros de cálculo (porque sei que os tenho) . Apresentem a vossa (Agel) versão dos factos.

Em alternativa, num esquema de Vendas Directas decente e honesto, há algumas subtis diferenças de estilo. Por exemplo, não há pagamentos periódicos obrigatórios. Uma pessoa pode pertencer à pirâmide e não estar nunca a perder dinheiro. A pirâmide não se desmancha porque os últimos níveis não têm motivos para desistência massiva. Outro exemplo é a forma de cálculo das comissões. Em vez de serem feitas em função das compras dos membros abaixo, são feitas em função das vendas que esses membros fazem para fora da rede. O produto vendido concorre com outros produtos no mercado geral, embora com um circuito de distribuição diferente. Há respeito pelas regras da livre concorrência. Não se ouve falar em fraude em blogs como este, nem em má reputação, nem anda meio povo a insultar os que denunciam práticas menos próprias.

4 comentários:

Anónimo disse...

nao acredito que seja isso irá aconteçer.
mas mesmo se for o que me preocupa isso??
se isso ainda demora uns bons anos, entretanto eu vou ganhando e BEM.
quem entra agora ganha o seu, e mesmo que aconteça isso que dizes, eu já disse que nao acreditava, ainda vai levar uns anos até á saturação.
nao me importo se a empresa é ilegal ou +- ilegal ou completamente legal, ainda no dia 22 de outubro o glen jensen disse em lisboa numa apresentaçao que portugal era o pais com mais distribuidores a seguir aos estados unidados, se assim for se todos os portugueses irao ganhar dinheiro, porque os dos outros paises terao de entrar para baixo dos portugues que já lá estao, e quando a saturaçao apareçer já todos nós ganhamos. e eu espero já estar a ganhar uma boa quantia quando isso acontecer :) quem nao quererá????

Pedro Menard disse...

Não acredita que é isso que irá acontecer, mas também não dá nenhum lamiré sobre uma alternativa válida.
Que o senhor só ligue a dinheiro e não se preocupe com os outros do final da pirâmide, é a mesma situação que estou a acusar a Agel de fazer, com a agravante de ser uma empresa que oculta propositadamente parte da verdade para atingir os lucros.
Não digo que esteja ilegal, porque ainda não sei em que bases assenta este negócio cá em Portugal. Não tenho problemas em aceitar a sua legalidade e em condenar à mesma a sua honestidade, são coisas diferentes, embora devessem, numa sociedade mais justa, ser tratadas de modo mais próximo. Creio que é uma questão de tempo até ser criado um regulamento para este tipo de situações. Infelizmente, nessa altura, já a Agel terá fechado e aberto com outro nome.
Respondendo à sua questão, eu não quero. Mesmo que entrasse a ganhar dinheiro, com dezenas de pessoas por baixo de mim, não entraria. Não quero ganhar dinheiro de uma empresa destas. Do mesmo modo, também não lhe quero dar dinheiro a ganhar. Não com o meu esforço ou dedicação. Para mim há uma pequena grande diferença entre o dinheiro sujo e o dinheiro honesto, e não passa pela cor nem pelo valor. Não quero ser mais um a fazer parte da estatística dos pobres com dinheiro.

Bernardo Vidal disse...

Eu concordo perfeitamente consigo e com tudo o que diz neste site, agora o problema é o seguinte: como contra-argumentar o facto (sempre dito de forma subentendida por quem recruta) de que nós vamos estar numa das posições cimeiras a ganhar dinheiro fácil? Outra questão é a da saída, é mesmo possível sair sempre que se quiser? Não há nenhuma contrapartida para com a Agel? Eu nunca me meteria num negócio destes exactamente por uma questão de princípio, no entanto é possível convencer-se pessoas suficientes para ter um retorno rápido e sai imediatamente a seguir

Espero pelos seus pensamentos,

Bernardo Vidal

Pedro Menard disse...

Não há contra-argumentos para esse facto. Quem entrar na altura da explosão do crescimento, tem muito mais hipóteses de conseguir ganhar algum.

Quanto ao outro ponto, acho que não está a ver bem a coisa. Quando alguém já estiver a ganhar dinheiro e tiver recuperado o investimento, para quê pensar em sair? Cada mês que passa é mais dinheiro que entra, pelo menos até à saturação do mercado.

Meu amigo, isto é uma questão de princípio: ou se gosta muito de dinheiro e se arrisca, mesmo sabendo da ilegalidade da coisa, ou então é-se honesto e se fica de fora.

Em qualquer dos casos, no final de tudo, vai haver muita gente ursa da vida. (cerca de 90% dos inscritos).

Cumprimentos,